jul28

Lutando pela liberdade

14 Comentarios »Postado por em 28/07/2011 às 01:46h

Um dos grandes orgulhos que tenho é poder dizer que escrevo para o público do PontoGeek. Não por causa do meu ego ou qualquer outra questão do tipo, mas porque sei que o grande público desse blog tem ou terá poder para contribuir com sua semente em prol da evolução social, buscando um mundo melhor. Geralmente meus posts são focados em reviews de programas ou gadgets que facilitam nossa vida. Realmente é uma área que me interesso muito, mas hoje pretendo falar sobre outra coisa. Quero falar sobre liberdade.

Calma calma, não desistam do post ainda. Não pretendo falar sobre idéias utópicas, pseudo-liberdades religiosas ou qualquer conceito hippie pregado por ai. Afinal, estamos em um blog de tecnologia. O que vem me incomodando a algum tempo e chamando minha atenção para novas possibilidades é o não tão popular  software livre.

Definitivamente não sou fã xiita dessa ideologia e muito menos da comunidade que a acompanha. Como desenvolvedor nunca me envolvi com ela o suficiente para ter coragem de dizer que todos os desenvolvedores deveriam adotar esse modelo. Como usuário não uso software livre com a frequência que talvez devesse usar, nem fico vasculhando a internet em busca de alternativas livres sempre que preciso de alguma coisa. Então não esperem que esse seja mais um post xiita-comunista pregando o fim da Apple, Microsoft e todas as empresas demoniacas adeptas ao software proprietário.

Pela definição adotada pela Free Software Foundation temos que um software é dito livre se as seguintes regras forem respeitadas:

  1. A liberdade para executar o programa, para qualquer propósito.
  2. A liberdade de estudar como o programa funciona, e adaptá-lo para as suas necessidades.
  3. A liberdade de redistribuir, cópias de modo que você possa ajudar ao seu próximo.
  4. A liberdade de modificar o programa, e liberar estas modificações, de modo que toda a comunidade se beneficie.

Esses quatro pilares sustentam algumas seguranças ao usuário. Percebam que em nenhum instante se fala sobre “software gratuito”. O modelo de comercialização de software livre existe, é muito forte e digno de ser avaliado. Mas isso já é assunto para outro post.

A liberdade de executar o programa para qualquer propósito e inclusive adapta-lo para suas necessidades da ao usuário controle sobre aquilo que ele adquiriu. Um exemplo: gosto de assistir filmes no player X. Acho ele muito intuitivo, muito bem feito e estável. Ótimo, mas eu não uso apenas um sistema operacional em minha máquina e não quero que ele fique preso a apenas um sistema. Se o player X for livre então absolutamente nada me impede de porta-lo para qualquer SO que for de meu  interesse, isso se a própria comunidade de usuários já não tiver feito isso. Entendam, nessa situação o desenvolvedor original do software não mete o dedo na máquina do usuário, ele apenas fornece o software com a proposta que achar melhor. A maneira com que esse será utilizado e personalizado não é de sua conta.

É um modelo de negócios bastante diferente do que estamos acostumados hoje. Talvez pela lavagem cerebral que a sociedade sofreu ao longo dos anos, talvez pela pura acomodação dos desenvolvedores aliada ao desejo do poder. Nesse modelo temos o desenvolvedor focado apenas em desenvolver. A liberdade do tão falado “software livre” está justamente no fato de que o usuário tem total controle sobre aquilo que está em sua máquina e ganha liberdade em sua relação com o desenvolvedor.

Essa liberdade implica que se em algum instante o desenvolvedor do player X por algum motivo resolver adicionar em seu programa uma restrição que impede, por exemplo, que o usuário assista pornografia pelo player nada impede que o usuário não aceite a implementação e a remova assim que desejar. Assim como caso o desenvolvedor resolva abandonar o projeto, ainda assim alguém poderá assumir seu lugar ou ao menos realizar a manutenção do software durante mais alguns anos. Dessa forma se tem a certeza que ninguém ficará dependente das motivações e ambições de uma só pessoa ou empresa.

No PontoGeek falamos bastante sobre o mundo da Apple, e acho que esse é um ótimo referencial para debatermos o perigo de ficarmos presos a software proprietário. Um dos produtos mais famosos da Maçã  é, sem duvida, o iPhone. Rodando o iOS vimos esse smartphone surgir em 2007 e ganhar o mundo em poucos anos. Hoje é dificil você encontrar alguém, mesmo os mais leigos no assunto, que não saiba o que é um iPhone ou que não use algum produto que não tenha sofrido qualquer influência conceitual devido a esse lançamento da Apple. O iOS é realmente um sistema operacional maravilhoso. Baseado no Mac OS (e consequêntemente no Unix) é estável como nenhum outro. Maravilhoso, mas seria ainda mais se não prendesse os colhões de seus usuários com mais força do que uma meretriz que não foi bem paga.

Os usuários do iOS sofrem diariamente com a falta de liberdade. Você não pode instalar qualquer aplicativo em seu iGadget sem que a Apple tenha permitido que aquilo acontecesse. Nenhum aplicativo é vendido na App Store sem que a Apple permita que aquilo esteja ali. Nenhum aplicativo entra em um iGadget sem que esteja na App Store (oficialmente). Da mesma forma, todos os aplicativos tem que respeitar políticas extremamente rigidas para ganharem seu espaço na loja do iOS. Essas restrições se aplicam ao funcionamento do aplicativo, em sua estética e já chegaram inclusive a botar o dedo na vida do próprio desenvolvedor. Durante bastante tempo a Apple deixou claro que se você quisesse colocar seus aplicativos na App Store então deveria ficar bem longe da alternativa, a Cydia Store.

O controle que a Apple possui sobre os usuários de seu iOS é absoluto e chega a transforma-los em um tipo de zumbis. Usam sua propriedade não como queiram mas como o grande Steve Jobs quer que usem. Não gostou? Não compre. Já comprou? Se ferrou. Essa é uma politica extremamente “binária”. Se gostou use, caso contrário vá embora. Você como usuário não tem qualquer possibilidade de adaptar seu gadget ao seu desejo sem que para isso tenha de recorrer a gambiarras.

E agora caros leitores, eu pergunto quem diabos deu esse poder à Apple? Quem chegou no não-tão-saudável Steve Jobs e deu a ele um documento entregando nossas almas para que ele se sentisse livre para nos controlar da maneira com que quisesse? Respondo sem pestanejar: nós demos.

Toda vez que alguem se contenta com a realidade, abaixa a cabeça e engole do jeito que lhe foi apresentada, automaticamente repassa poder de escolha para outra pessoa. Aceitamos o iOS do jeito que nos foi apresentado desde o começo. Aceitamos o Mac OS. Aceitamos o Windows. Aceitamos inclusive o software que controla nosso roteador sem sequer nos darmos conta que, ao compra-lo estamos não apenas pagando pelo produto mas também estamos dando poder para seu construtor fazer o que quiser com aquele roteador sem que possamos fazer nada para impedi-lo.

Como eu disse, não sou nenhum xiita do software livre. Consigo entender perfeitamente que na hora H queremos que o negócio simplesmente funcione. Não queremos ter de lidar com interfaces horriveis, com software bugado ou com documentação precária e mal feita. Infelizmente, hoje em dia a coisa que mais impede que o software livre se popularize é justamente o próprio software livre.

Vendo como exemplo um dos mais famosos softwares livres temos o GNU/Linux. Fugindo da questão do tempo de aprendizado que todo usuário precisa para só então entender o sistema (afinal, esse tempo é necessário para aprender qualquer coisa nova) eu vejo que as distribuições do GNU/Linux sempre pecam em uma coisa básica, dificilmente são adeptas do “Just Work”.  Nenhum usuário que perder tempo tendo de brigar com cagadas feitas pelos desenvolvedores. Coisas simples e óbvias devem ser tratadas e debugadas antes que se pense em liberar o software para o usuário. Isso é justamente um ponto que sempre pega.

Uso Ubuntu desde 2008. Antes disso cheguei a me aventurar por várias distribuições até que encontrasse uma que eu me identificasse. “Linux para seres humanos”, esse é o slogan da distro. Lindo, mas falha miseravelmente toda vez que recebo uma atualização de kernel (o “miolo” do sistema) e, por ter obedecido a uma recomendação dos desenvolvedores de instalar a atualização, me vejo obrigado a ter de reinstalar manualmente o driver de vídeo. @#@!$!! Se esse é um procedimento obrigatório então coloquem a porcaria de um script que faça isso de forma automática! Eu sei fazer esse procedimento de olhos fechados, posso inclusive escrever um script que faça isso pra mim mas e a minha mãe? Como vou apresentar a ela um software que se sabota sempre que ela aceita realizar uma atualização, coisa que deveria trazer apenas benefícios para o usuário? E meu advogado? E meu médico? Nenhum deles é computeiro, nenhum deles tem interesse em dedicar horas buscando soluções para má implementação de software. Querem apenas que funcione, e que seja agradavel.

Por questões estéticas e por questões funcionais vemos a Apple disparando na frente de seus concorrentes com o Mac OS e com o iOS. Não julgo que esta errada, é o trabalho dela. Ela entendeu o que o usuário quer e conseguiu uma maneira de fornecer isso de forma que junto do pacote ela consiga colocar uma sementinha de dominio sobre o usuário. Parabéns, palmas a ela! Não apenas encontrou uma árvore de dinheiro como encontrou métodos para transformar seus clientes em viciados.

Observemos como o Mac OS tem se assemelhado cada vez mais ao iOS. Assim como no filme Inception, idéias não são postas na cabeça das pessoas de forma abrupta. Essas devem ser reduzidas a conceitos simples e empurrados goela abaixo de forma sutil e discreta até que a vitima fique completamente presa na armadilha. Alguém realmente duvida que daqui alguns anos teremos o Mac OS completamente fechado e submetido ao controle da Apple de forma tão absurda quanto o iOS hoje em dia? Se essa idéia parecer absurda hoje, garanto que quando esse dia chegar já não parecerá.

Software proprietário é um perigo. Sua adoção implica na submissão do usuário a uma motivação que pode ou não ser das melhores. O perigo está inclusive na adoção de formatos proprietários de arquivos.

Esses dias me vi em uma situação muito interessante. Fuçando em meus arquivos pessoas encontrei uma pasta com quatro arquivos de texto (TXT) de, pasmem, 1997. Na época eu era apenas uma criança brincando com o bloco de notas, mas consegui produzir material que hoje me faz rir e até me emocionar por ser tão significativo para minha vida. O fato desses arquivos terem sobrevivido por 14 anos é muito interessante, mas o que é ainda mais interessante é que consigo abri-los sem problema nenhum. Do mesmo jeito que os salvei pela ultima vez consigo vê-los hoje em dia. Será que eu poderia esperar o mesmo se tivesse salvo eles em algum formato proprietário? Quem sabe algo do Office 97 ou até mesmo da suite Lotus 123? Provavelmente não. E quem entende isso melhor do que ninguém são os profissionais que trabalham com Corel Draw e se viram deixados na mão quando a Corel resolveu simplesmente tornar a versão mais recente do programa incompativel com formatos de arquivos criados com versões anteriores.

Não sei se algum CEO de alguma grande empresa de tecnologia é leitor desse blog, improvável. Contudo conheço algumas dezenas de desenvolvedores que eu sei que lêem meus posts e que vira e mexe caem nessa discussão comigo pelo Twitter ou em outras quebradas da vida. Acho que qualquer esforço é digno de palmas e que a disciplina merece ser louvada. Não tenho ambições que esse post seja decisivo para que usuários parem de usar software proprietário ou para que desenvolvedores saiam loucamente abraçando o mundo do software livre. Apenas proponho um exercício diário. Procurem opções livres para seus softwares do dia-a-dia. Se encontrar uma boa opção, considere adota-la. Fazendo isso você não estará ajudando a alguma ONG do outro lado do mundo, não estará salvando criancinhas na Africa e provavelmente continuará tendo de pagar suas contas todo mês, mas estará contribuindo com um grão de areia para que a sua liberdade seja respeitada.

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