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Motivos para NÃO comprar um Kindle

1 Comentario »Postado por GordoGeek em 27/12/2012 às 22:18h

     Nas últimas semanas os brasileiros foram “presenteados” com a abertura de várias lojas virtuais de livros vinculadas a grandes empresas, como Apple, Amazon e Google. Com elas, também chegaram ao mercado nacional os e-readers Kobo (Livraria Cultura) e Kindle (Amazon). E assim, diariamente, venho recebendo perguntas do tipo: “Devo comprar um Kindle? Vale a pena?”.

     Apesar de adorar tecnologia, gadgets e novidades em geral, nesse post eu vou fazer a vez do advogado do diabo e defender o “atraso”, ou seja, os motivos para ainda preferir os livros físicos aos digitais e assim, não comprar um e-reader, seja o da Amazon ou qualquer outro.

     Em primeiro lugar, temos o preço do dispositivo em si. Nem acho o Kindle a R$ 299,00 caro, levando-se em conta que lá fora a mesma versão custa USD 89. Se você fizer uma conversão rápida, com o câmbio a R$ 2,10, acrescentar frete, impostos, custos financeiros do parcelamento em 10 vezes e a margem do varejo (no caso, o Ponto Frio), verá que não existe abuso algum ae (diferente do iPhone 5, cof, cof, cof). Mas que justificativas eu posso dar pra minha mãe que investir essa grana num aparelho é uma boa coisa?

     Quem é apaixonado por livros adora o Kindle (e dispositivos similares, como o Kobo, Nook, etc.). É muito agradável ler numa tela de e-ink, que é bastante diferente de um smartphone ou tablet, especialmente quando levamos em conta a autonomia de bateria e o fato de se poder ler em ambiente mais claros, como deitado numa rede, sem se preocupar com reflexos. Ler debaixo do sol intenso, numa praia ou a beira da piscina, também não é problema pra quem tem um Kindle. Ele também é leve e bastante ergonômico, encaixando na mão perfeitamente. Além disso, dá pra se transportar 1.000 livros facilmente na bolsa. Se você mora numa casa ou apartamento pequeno, ainda ganha espaço extra, pois não vai ter que armazenar os livros físicos, assim como já acontecem com os CDs. Ah, e se você algum dia se mudar, vai agradecer o fato de não ter que transportar pesadas caixas com livros.

     Apesar de ser um aparelho fantástico, vamos combinar que com R$ 299,00 se compra bastante coisa, né? Dá inclusive pra comprar cerca de 10 livros, o que, pra quem não lê muito, garante o ano. E ae que está a principal questão: você lê muito?

     Talvez o Kindle até mude seus hábitos e você passe a ler mais, mas isso é pouco provável. Como o aparelho é algo dedicado para leitura, não fazendo outras coisas (como um tablet), se você tiver períodos corridos na vida e deixar a leitura de lado, vai ficar vendo o Kindle na gaveta e pensando: “pra que eu comprei isso?”. Eu já fiz isso QUATRO vezes. Comprava quando ia em viagem para os Estados Unidos, lia alguns livros, mandava pra gaveta e depois acabava vendendo.

     Superada a barreira da compra do aparelho em si, vamos focar no conteúdo. Se você consegue ler em inglês com certa facilidade, o mundo está a seus pés. Você terá milhares (quem sabe milhões) de livros disponíveis para comprar, inclusive muito mais em conta que os similares nacionais. Porém, se você não tem essa habilidade (e não pretende adquirí-la), aparece o segundo complicador da equação.

     Eu sempre via meu pai carregando livros pra todos os lugares que ia. E não era meramente enfeite, como muitos fazem. Ele realmente gostava e os devorava. Como ele anda “moderninho”, com Galaxy S3, iPad e tal, resolvi presenteá-lo com um Kindle nesse natal. A cara que ele fez ao abrir o presente foi impagável: “mas que diabos é isso?”. A primeira reação dele foi tocar a tela, mas como a versão que dei foi a básica, não funcionou. Depois, me perguntou porque era preto e branco. E finalmente: como acessa o Facebook por ele.

     No dia 25, sentei com ele para tirar as dúvidas e ensiná-lo a usar o brinquedinho. Eu já tinha criado uma conta na Amazon pra ele, coloquei alguns livros no aparelho e depois vinculei a conta no smartphone e tablet, pra ele ter tudo sincronizado. Adicionalmente, pedi um cartão de crédito pra ele, vinculado ao meu, como dependente e já cadastrei no site da Amazon. Fiz isso porque ele jamais teria a segurança necessária pra colocar o próprio cartão ali.

     Conforme o dia foi passando e eu fui explicando pra ele como usar o aparelho, algumas dúvidas me pareceram bastante pertinentes e válidas. Imagino que, os mesmos questionamentos, possam aparecer com você ou seus familiares.

     Pra gente que é mais ligado a tecnologia, faz todo sentido pagar R$ 2.000,00 num smartphone ou tablet e depois comprar conteúdo, sejam apps, livros, seriados, etc. Agora vai explicar isso pra quem não é muito apaixonado por tecnologia. Não é raro ouvir: “mas espera ae: eu paguei X no aparelho e ainda tenho que pagar por conteúdo?”.

     Uma coisa bacana que vejo na maioria das lojas que vendem livros digitais é a “amostra”, ou seja, um pedacinho do livro que fica disponível pra gente conhecer o conteúdo e ver se interessa. Porém, em alguns casos, a amostra quase acaba depois do índice. E é ae que começa outra parte do problema: as editoras/ autores ainda não entenderam a filosofia que Jobs implantou na iTunes Music Store.

     Se você fizer uma pesquisa nas principais lojas que vendem e-books vai ver que o preço do livro digital é muito similar ao livro físico. Além disso, muitos títulos só estão disponíveis em inglês e outra parte só em papel. Chato, pra dizer o mínimo. Você compra um Kindle achando que vai facilitar tudo e percebe que não é bem assim.

     Sobre os preços dos livros, preciso fazer uma ressalva: nem sempre a culpa é do autor ou da editora. Algumas lojas online, como a Amazon, chegam a morder 70% do preço de capa do livro. Ou seja, aquela economia que teríamos pelo livro não usar papel e não ter transporte envolvido, foi pro beleleu. É claro que as lojas tem que ganhar, afinal, tem todo o custo de armazenamento, banda de internet, marketing, etc. Mas em alguns casos, a margem é draconiana.

     Algumas plataformas de livros permitem que você empreste seus livros a amigos. Porém, ele precisa ter o mesmo dispositivo que você. No livro físico, além de poder emprestar seu livro pra quem quiser, esse não precisa ter um dispositivo. Num futuro, se todos tiverem e-reader, isso talvez não seja um problema, mas atualmente é.

     Uma coisa que não tinha me dado conta e ouvi o Otávio Cordeiro comentando no podcast iTechHoje é o fato de, no livro físico, você poder abrir vários ao mesmo tempo em cima de uma mesa, enquanto cruza referências. Com um único Kindle, seria impossível, já que ele possui apenas uma tela. Óbvio, né? Mas se você usa livros técnicos e tem o costume de abrir vários para procurar referências, complicou.

     Eu tenho o hábito de sempre ler um livro com uma caneta de destaque em mãos. Acabo grifando palavras ou trechos que acho importante para me lembrar de algo numa referência futura. No Kindle dá pra fazer isso, especialmente na versão Touch, mas é muito mais trabalhoso que simplesmente usar uma tecnologia analógica como uma caneta.

     Esse texto não é um manifesto contra os livros eletrônicos. Eu mesmo gosto do Kindle e da experiência que ele me proporciona. Só acho que, como formador de opinião e alguém que recebe consultas diárias sobre o tema, devo mostrar que nem sempre um e-reader é algo aconselhável a todos. Alguns vão preferir continuar nos livros físicos, outros num tablet (por ser multifunção) ou até no smartphone. O fato é: quanto mais você gostar de livros, mais indicado ele é pra você. Ah, antes que eu me esqueça, revistas e PDFs em e-readers deixam bastante a desejar, por isso meu foco em livros.

     Sei que muita gente vai querer rebater os argumentos e dar vários outros em prol dos livros eletrônicos. Eles serão bem vindos e acredito que vão enriquecer o debate. Fiquem a vontade pra usar o espaço dos comentários ae embaixo.

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